sábado, 29 de outubro de 2011

MEC recomenda software livre e não paga licenças MS

Parece que o Ministério da Educação comunicou aos Directores das escolas secundárias que não paga mais licenças Microsoft para cerca de 50000 computadores, que no último ano custaram ao Estado mais de 1M €, recomendando ao mesmo tempo a reconversão dessas máquinas para software livre. Isto é segundo o Público de 29 de Outubro de 2011. Quais licenças, que tipo de computadores, exactamente qual software e se poderá continuar-se a comprar alegremente computadores com software MS instalado e implicitamente pagar as respectivas licenças é algo que a notícia em si não esclarece por aí além. Que não são só servidores parece óbvio de uma referência a 50000 computadores. As habituais confusões entre software de código livre, grátis e Linux estão presentes no texto da notícia.

O que me deixa um pouco perturbado é algo muito simples: a adopção de software de código livre em geral obriga a que quem o administra tenha uma preparação alguns furos acima do que acontece com os produtos MS. Não é este o mesmo governo que acaba de sinalizar a todos os profissionais de informática competentes que trabalham para o Estado que o melhor é mudarem-se para o privado e depressa?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Como fazer uma página web

Embora existam standards técnicos para páginas web para pessoas com problemas de acessibilidade fala-se muito pouco de como se pode fazer um mau sítio web para o público em geral.

Esta nota destina-se a guardar as sugestões indispensáveis para fazer um péssimo sítio web de uma assentada.

  1. Estude exclusivamente qual o aspecto da página de entrada. O resto não interessa.
  2. Dá muito trabalho editar HTML. Há o Save As HTML do MS Word ou melhor ainda use digitalizações dos seus ofícios.
  3. Não ligue para a gramática ou erros de ortografia.
  4. Use animações ou qualquer coisa a piscar.
  5. Contrate um rapaz jeitoso que trabalhou para alguém que você conhece e fez uma coisa engraçada.
  6. Não planeie absolutamente nada, não analise a estrutura lógica do seu negócio e não se preocupe com os utilizadores do sítio.
  7. Ponha muitos Clique aqui.
  8. Aproveite bem o espaço da página. Nada de espaço em branco, texto bem amontoado,...
  9. Quando uma imagem for pequenina amplie-a!

O stalinismo luso na web governamental

As mudanças governamentais em Portugal trazem, tão certo como a monção, o desaparecimento súbito de sítios web de órgãos governamentais que subitamente deixaram de existir. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior dos governos Sócrates, em que Mariano Gago era ministro, tinha um sítio em www.mctes.pt. Não era propriamente um primor tecnicamente mas com certeza que era inestimável como registo histórico público e facilmente acessível de seis anos de notável desenvolvimento deste sector. Agora foi reduzido a um bastante lacónico aviso de site em manutenção. Compreende-se que não se queira dar a ideia de que um organismo que já não existe, ainda existe, mas não se poderia ter um compromisso minimamente inteligente, como se deveria esperar da parte da administração que superintende à ciência e a tecnologia?

Seria transcendente alterar a página de entrada para algo que dissesse que se tinha acedido ao antigo sítio de um Ministério, mostrar uma ligação para a entidade sucessora e outra para aceder a uma versão arquivada do sítio? Que a web, como qualquer outro mídia, tem valor histórico é algo que a corrente geração de políticos e intelectuais ainda não entende, votando-lhe o mesmo desprezo a que já foram votados o cinema, rádio, televisão ou banda desenhada. Mostrem-lhes um monte de ofícios em papel e ficam babados com o seu valor histórico.

Outro sintoma da mesma maleita é a legislação sobre o acordo ortográfico que impõe a reescrita em português “acordado” de tudo o que é página web oficial irrespectivamente de quando foi escrita. Com sorte, tratando-se de um pedaço de legislação socrática, será rapidamente esquecida...

Felizmente que ainda existe o Internet Archive!

sábado, 25 de dezembro de 2010

Acessibilidade ministério a ministério

Vamos verificar como, ao fim destes anos todos de legislação sobre acessibilidade web nos sítios da administração pública, se comportam os sítios de topo de cada ministério na sua página de entrada. Os erros de acessibilidade apontados correspondem aos apontados automaticamente pelo TAW. Os erros de HTML são os apontados pelo validador do W3C.

Não se trata de uma avaliação séria que exigiria análise daquilo que só se pode verificar manualmente e reanálise do que é apontado automaticamente. Deixa-se isso ao cuidado do leitor.


MinistérioErros HTMLErros AErros AAInfoData
Presidência de Conselho de Ministros000Anuncia AA25/12/2010
Finanças e Administração Pública3312Anuncia AA25/12/2010
Ciência, Tecnologia e Ensino Superior3812Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Educação7700Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Economia e Inovação30107Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Cultura42037Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Saúde7817Anuncia AA25/12/2010
Obras Públicas, Transportes e Comunicações22104Anuncia A25/12/2010
Administração Interna300Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Justiça65021Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Negócios Estrangeiros3005Símbolo de Acessibilidade25/12/2010
Ambiente e Ordenamento do Território33025Anuncia A25/12/2010
Trabalho e Segurança Social23704Anuncia A25/12/2010
Defesa Nacional2210229Anuncia A25/12/2010
Agricultura, Desenvolvimento Regional e Pescas40042Anuncia A25/12/2010

Reportando greves

Uma das originalidades da presença web da administração pública portuguesa é a obrigatoriedade de publicitar os aderentes a greves afectando o serviço. Trata-se de algo feito de acordo com um despacho do Ministro das Finanças e da Administração Pública. Supostamente isto aumenta a transparência. Só não se percebe uma redundância totalmente inútil. Cada serviço é suposto comunicar os seus números a uma base de dados central mas também colocar os seus valores disponíveis no sítio da internet do serviço. Isto provoca uma falta de transparência por overdose pois cada sítio publica os seus dados da maneira que lhe apraz e uma busca usando um motor de busca torna-se algo extremamente penoso. Claro que tudo isto se evitava se a base de dados central que recebe os dados publicasse os resultados de uma forma canónica num local único.

Tudo isto para alimentar a tradicional guerra das contagens de greves entre governo e sindicatos...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Verdade na acessibilidade

A acessibilidade para pessoas com deficiências aos sítios da administração pública está regulada pela Resolução de Conselho de Ministros nº 155/2007. Mais detalhes podem ser encontrados no sítio da UMIC nas páginas dedicadas a acessibilidade.
É natural esperar que os sítios da administração pública publicitem as condições de acessibilidade que satisfazem. Tal é feito através de variados logotipos.
Uma dúvida no entanto é natural. Será que acessibilidade anunciada é de facto verificada? Infelizmente podemos verificar com exemplos triviais que a resposta é não.

Consideremos o sítio dos Contratos Públicos online. O sítio exibe na sua página de entrada o logotipo de conformidade com o WCAG 1.0 que é justamente o standard do W3C que deve ser respeitado ao nível A de acordo com a Resolução de Conselho de Ministros. O logotipo sugere a conformidade ao nível AAA o que é algo bastante mais exigente. Para verificarmos a conformidade vamos usar os testes incluídos com a extensão Web Developer do Firefox. Escolhendo Validate WAI no menu Ferramentas (isto é equivalente, na configuração por omissão, a correr a ferramenta Cynthia says) obtém-se que a página de entrada do portal falha:
  • A existência de texto alternativo para imagens.
  • A não utilização de código HTML obsoleto.
  • A indicação de meta tags importantes como keywords ou language.
  • A inclusão de label nos elementos dos formulários.
  • A identificação da língua usada no documento.
A primeira falha invalida a conformidade ao nível A, enquanto as restantes afectam os níveis AA e AAA. Portanto o logotipo é claramente despropositado e nem sequer a conformidade ao nível A imposta na legislação portuguesa é verificada.
As falhas apontadas são aquelas que conseguimos detectar automaticamente. Algo que devo fazer notar é que nem todos os verificadores automatizados de acessibilidade dão as mesmas indicações e há pontos que não são susceptíveis de verificação automatizada.
O Examinator da UMIC dá mais algumas indicações:
  • Não existência de alternativas a javascript.
  • Ainda mais atributos obsoletos de HTML.
  • Erros de CSS.
  • Uso de medidas absolutas nas folhas de estilo.
  • Uso de tabelas a despropósito.
  • Mais do que um cabeçalho de nível 1.
  • 221 erros de validação (de HTML).
  • Problemas com o título da página.
O examinator é um pouco fundamentalista relativamente à interpretação do standard mas não restam dúvidas: o sítio dos Contratos Públicos online não satisfaz a legislação portuguesa sobre acessibilidade de uma forma bastante óbvia! Mais grave: afirma despudoradamente o contrário.

domingo, 18 de outubro de 2009

Câmara Municipal de Lisboa emula(?) Fix my Street com naminharua

Agora que saímos das eleições autárquicas não há nada mais apropriado para um blog que se propõe analisar as relações entre a administração pública e a web do que começar com o novíssimo portal da CML, naminharua de seu nome, que emula o britânico Fix my Street (quem o diz é o Público, veremos se é verdade).
O facto teve honras de notícia no Público que lhe chama em título um Portal de Queixas (pois, mais um título preciso; duvido que sirva para nos queixarmos sobre a taxa de esgoto...) e relata dificuldades de funcionamento. As dificuldades de funcionamento parecem a frustração dos masoquistas que ainda usam Internet Explorer 6 (~13% dos ~55% de utilizadores que usam Internet Explorer de acordo com as estatísticas de outro portal completamente diferente), lentidão, aquele sempre preciso diagnóstico mas que no meu caso corresponde a um Aguarde... de cerca de 1 minuto ao meio dia de Domingo, o que possivelmente neste caso quer dizer que, tendo o portal aberto imediatamente antes das autárquicas, estava e está tudo um pouco preso por arames e, finalmente algo bem concreto e relevante, a necessidade de instalar Microsoft Silverlight 3.0, algo um "bocadinho" difícil se se usa Linux.
A comparação com o Fix my Street é um pouco descabida. Aquele portal britânico é operado por MySociety.org e não por uma câmara municipal ou por outro organismo governamental. O que se vê ao entrar no naminharua é um mapa interactivo de Lisboa supostamente para assinalar as nossas queixas. Outras queixas já publicadas por outros primam pela ausência enquanto que no FixMyStreet é a primeira coisa que se vê.

Depois de duas actualizações do moonlight consegui chegar (depois da habitual espera de cerca de 1 minuto) a um formulário de submissão da ocorrência em que a primeira coisa que é pedida é o NIF (!) e ou outros campos pedidos parecem ser um sonho de uma agência de telemarketing. Será que a CML pretende cobrar IVA a quem denunciar um buraco num passeio? Será que esta base de dados passou pela Comissão Nacional de Protecção de Dados? Note-se que os dados parecem ser transmitidos por http sem qualquer encriptação a não ser que tal seja feito internamente ao silverlight. Ainda não consigo submeter o que quer que seja pois não consigo fazer escolhas em menus.
Curiosamente o portal parece ter uma interface toda ela assumindo que não estamos em Portugal: distâncias em jardas e milhas, impossibilidade de introduzir caracteres com acentos.
O diagnóstico da qualidade técnica do portal é o habitual em portais desenvolvidos com tecnologias Microsoft. Há erros de HTML e a acessibilidade para pessoas com deficiências falha os critérios da Resolução de Conselho de Ministros 155/2007.
Enfim: uma ideia razoável, desenvolvida com pouco cuidado e tecnologias não universais e minimamente estáveis.